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Maria Amélia!






Hoje, 2/5/2009, minha mãe completa 70 anos. Mamãe como é o hábito lá de casa. Ela costuma dizer que nasceu num dia e casou-se no outro – três de maio. Belo trocadilho. Meio infame, mas não assustador. Explico: se repararmos que se trata de alguém nascida na terceira década do século passado, quando os cartórios não eram tão acessíveis, esse fato não seria corriqueiro. Bem, entenda que, por mais maluco que possa parecer, minha mãe e tantos outros nascidos naquela época não nasciam em um dia e casavam-se no outro. Se eu não estou equivocado isto é coisa da Idade Média. No Brasil houve o que se chama Idade Média? Ter acesso ao cartório era difícil. Mas não vem ao caso remexer no passado uma vez que “... em Roraima, por exemplo, 40,1% dos nascidos em 2007 não teriam sido registrados, enquanto no Amapá, o percentual chegou a 33,3%” Barbárie? Imagine há 70 anos atrás quantos homens e mulheres nasciam, produziam, casavam-se, tinham filhos, netos, morriam e sequer passavam pela porta do cartório. Eram invisíveis para o poder público – diga-se educação, previdência social e congêneres. Mas para a exploração dos coronéis de antanho esses brasileiros eram totalmente visíveis.

Auto lá! Esta postagem não tem como centro aqueles exploradores e exploradoras. Minha mãe e seu aniversário são o centro. Entretanto, mencionar esses episódios tão corriqueiros da vida brasileira ajuda a situar quem é Maria Amélia. Aliás, Maria Amélia! É assim que todos a conhecem lá em Paratinga – Bahia, onde nasceu e viveu quase 55 de seus setenta anos. Mais do que o lugar onde viveu, casou-se com Alípio Venâncio dos Santos – um namoro digno das narrativas de W. Shakespeare – teve cinco filhos, um faleceu quando ainda não havia completado um ano de vida.

Maria Amélia é uma mulher lutadora. Apaixonada pelos filhos – e agora as netas –, ministrou aulas como professora do município de B. Jesus da Lapa – BA, foi educadora mobralista no final da década de 1980 e lavava roupa no Rio São Francisco para completar a mínima refeição diária. Meu pai era lavrador. Como um homem negro pode criar quatro filhos “na cidade”, estudando? A vida, lá em casa era... mas concluíram o ensino médio, na idade regular, e ingressaram na faculdade. Você não viu nada, amigo. Só quem conhece Maria Amélia… sabe do que estou falando. Boa gente. Coração extremamente aberto, voluntarioso, dedicado.

Parabéns mamãe. Que a benção do Todo Poderoso esteja presente em todos os dias de sua vida e que sua saúde seja renovada diariamente para ver os filhos dos teus netos.







Casamento

(Adélia Prado)


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.



Disponível em: http://www.releituras.com/aprado_casamento.asp

Acesso em: 02/05/2009

Comentários

  1. Emocionante! è bello! E pensando bem, minha mae e sua història, recontados por voce dao um belo livro! lançada a idèia.
    A foto tb è uma poesia.

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