quinta-feira, 9 de julho de 2009

'O outro mundo possível'

“[...]
Cuba está longe do que seria 'o outro mundo possível'. Porém, uma coisa é certa: para quem vive como rico no mundo capitalista, ali se situa o inferno; para a classe média, o purgatório; para os pobres, o paraíso – não há analfabetos, famintos ou pessoas impedidas de acesso à saúde e à educação. E se há um povo que pensa com o coração, gosta de religião e adora música, esporte e arte, é o povo cubano.”
In Revista Poder Joyce Pascowitch. São Paulo: Glamurama Editora. Março 2009, nº 13, p.53




O capitalismo não é ruim em si. Como tem sido usado, fragmentado, distorcido nos quatro cantos do planeta, faz com que todos vejam nesse regime econômico uma representação do próprio diabo. Se o poeta Gregório de Matos fosse nosso contemporâneo diria que, sabatinado por representantes de todas as religiões, “o coisa ruim” negou que ele seja o mentor intelectual da quebra dos bancos nos EUA, de seu sistema imobiliário, da especulação financeira e dos paraísos fiscais. Na sabatina, alguém falou da invasão ao Iraque, da pedofilia e comércio de seres humanos. O “demo” detalhou que gostaria mesmo de ter participado de todos esses eventos, mas não deixaram. A avareza está na alma humana assim como prótons e elétrons compõem o átomo. Em alguns ela é mais visível, em outros ela consubstancia-se “naquela oportunidade inequívoca de tirar o pé da lama”. É só uma questão de ocasião: o taxista, o padeiro, o pedreiro que desperdiça o material para justificar o tempo parado, o atendente que nega a nota fiscal, etc.
Você, leitor, então questiona: e o político corrupto no gabinete? Aquele que exerce um mandato político não é um taxista – representante da categoria na câmara, assembleia? O homem da padaria, representante de seus pares está exercendo, num dado momento, o cargo eletivo. O sindicalista... Todos nós temos esse borrão em nossa carga de humanidade. Reprimir ou deixar vir à tona a cobiça, a avareza ?
O verbo [reprimir] nos direciona para Cuba. Não sou solidário a essa forma de governo. Reconheço que o adjetivo que menos qualifica a Ilha, e seus governantes, faz companhia para o substantivo, regime - “repressor”. É bem capaz de alguém sugerir – alguém que tenha cpf, endereço fixo e talvez passaporte, não uma entidade do mundo não físico – que tem muito mais valor o consumo, a reificação do que acesso à saúde, educação e que se admire Paulo Coelho e não Frei Betto. Ora, de que adianta ter acesso à educação e saúde se não posso ter como aliviar minha consciência distribuindo sopa debaixo dos viadutos nas noites frias do inverno; criar uma ONG para arrecadar fundos e cuidar das crianças abandonadas tanto pelos pais biológicos quanto pelo estado – nas Fundações Casa, abrigos e congêneres - pelas ruas e avenidas?
Ah! as festas natalinas. Quanto afago eu sinto ao ver aquela maravilhosa árvore de Natal enfeitando a sede do banco , cujo proprietário foi o primeiro a levantar a voz contra os juros tão baixos; o bolsa família vai quebrar as contas públicas!
Não podemos ser superficiais e rotular as pessoas de acordo com a classe social/econômica na qual estão situadas. Apesar de este tornar-se o exercício mais fácil e por extensão o mais simplório de se realizar, o rótulo estigmatiza ou exclui quando o olhar conveniente é o da esfera das similaridades, de entendimentos que estão na mesma confluência apesar do fosso cristalizado pela condição financeira. Há homens e mulheres ricos extremamente comprometidos com a erradicação da fome e da miséria assim como há homens e mulheres pobres insensíveis às necessidades preeminentes de seu semelhante.
O que está posto neste excerto da Revista Poder Joyce Pascowitch é uma característica, o ideal a perseguido pelos países de norte governamental socialista, mas, visível a olho nu, em Cuba. O papel do estado como provedor das necessidades básicas de seus cidadãos (“não há analfabetos, famintos ou pessoas impedidas de acesso à saúde e à educação”) em oposição ao cotidiano dos países regulados pelo capitalismo. Entretanto, não podemos nos esquecer de que há países capitalistas nos quais não há analfabetos, famintos ou pessoas impedidas de acesso à saúde e à educação . Muitos estados nórdicos tem esse perfil sócio-econômico.
'O outro mundo possível': é isto mesmo o que procura o viajante que vai à Cuba?
“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência].” Colossenses 3.5, 6.

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