domingo, 23 de agosto de 2009

Prosear

Prosear


Há nove anos eu transito pelas ruas do bairro onde moro. De carro ou a pé, costumo apreciar a arquitetura e os diferentes tipos de árvores e suas flores. Ainda não conheço tudo. Recentemente tomei conhecimento do sistema de abastecimento de água das residências. O bairro surgiu a partir de um conjunto de casas para os funcionários da Companhia Brasileira de Planejamento e Obras instalada numa antiga fazenda a poucos metros das casas.
Na fazenda havia uma lagoa. A Sabesp não atendia essa localidade. O dono da empresa e fazenda resolveu construir um reservatório de água no ponto mais ingrime do vilarejo. A água da lagoa era bombeada até ali e depois distribuída para os moradores. Atualmente os habitantes não utilizam aquela água, mas a caixa está lá até hoje, silenciosa, ao abrigo das sombras de imponentes eucaliptos, quase no ponto central de uma praça pública.
Quem me desvendou essa face histórica do “meu” bairro foi um senhor, aposentado pela CBPO, sem pretensões a historiador. Confesso que essa notícia deixou-me encantado com a singularidade desse lugar. Passei a tratá-lo com olhos ainda mais carinhosos. Imediatamente minha memória associou esse fato à minha história pessoal, familiar.
Venho de uma família de ex-escravos. Meus avós paternos e maternos descendem de escravos. Como a grande maioria dos negros e negras brasileiras, discriminados pela sociedade, é claro que a história da escravidão também era velada dentro de casa. Lembrada apenas nos momentos de infortúnio [portanto, quase todas as semanas]: uma associação direta ou indireta dos efeitos da escravidão e ao descaso público aos escravos, seus filhos e netos.
No ano de 2006 minha irmã me enviou um e-mail cujo conteúdo eu o recebi com um misto de estupefação e receio de que fosse uma brincadeira - familiar. Foi publicada uma tese de dissertação da UNEB. O tema era a vida da comunidade quilombola chamada Mangal. Uma tia, nascida e criada ali, assim como meu pai, tios... é reconhecida como líder do lugar e homenageada como patronímico da única escola da comunidade. Li o texto umas três vezes. Os nomes citados são daqueles que iam lá em casa aos sábados, feriados...
Passamos a valorizar, apreciar o que conhecemos. Quando se trata de uma coisa ou fato histórico imediatamente ligado à história de vida, essa valorização torna-se mais presente, pulsante na memoria e na extensão de nossos atos.

2 comentários:

  1. Oi mangazeiro,
    às vezes meu marido me pergunta pq eu fotografo cada pedra deste lugar, onde moro hoje...
    Eu gostaria de ter tido a possibilidade de fotografar os cenàrios de minha vida no Brasil.
    Apreciar o lugar onde vivemos, as pessoas com quem convivemos, o tempo em que vivemos è algo que penso, serve para me fazer recordar de onde vim... aonde cheguei e visualizar com esperança um futuro melhor. Enxergando o mover de Deus a cada segundo.
    Nossa història deve ser contada, reconstruida, deve servir de marco para a futura geraçao... e è responsabilidade nossa resgatar, construir algo novo... Pq seguramente onde chegamos hoje, è resultado dos esforços daqueles que nao alcançaram, mas sonharam.
    Vamos ao Mangal???
    Eh bom ler tuas postagens.
    Abraço mangazeiro.

    ResponderExcluir
  2. EU sempre me recordo de alguns nomes que iam lah em casa... S. Jovino, S. Procòpio, S. Alexandre, e aquela tia de papai, descontente com a vida que dizia ir lah embaixo na casa de Sr. Paulo, e dizi assim: vo-pa-ta-palo!![trad: vou na casa de Paulo] rsrsrsrsrsss

    ResponderExcluir

Um texto é sempre inconcluso.