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Neverland ?

As transmissões dos jogos da Copa do Mundo de Futebol entrarão para o livro dos Records. Aficionados por futebol, sonâmbulos e até aqueles que detestam futebol são vítimas (?) ou deixam-se engalfinhar pelos exuberantes comentários. Se o time do narrador sofrer um revés, vale o pito do “Galvão Birds Foundation”?

Os mais velhos, gente de 50, 60 anos de idade, moradores de cidades não metropolitanas como São Paulo, tem registros mais fortes dos jogos de futebol transmitidos pelo rádio. FM e principalmente a frequência em AM disputavam cada ouvinte com o jingle de um locutor tão reconhecido quanto o jogador que estava entre as quatro linhas. “Fiori Gigliote, Pedro Luiz, Osmar Santos, Haroldo Fernandes, José Silvério, Valdir Amaral, Jorge Cury” entre tantos outros. O status social era tão relevante que o comentarista de futebol João Saldanha tornou-se técnico da seleção brasileira de futebol. Mas... coitada da África do Sul. O futebol lá apresentado pelas seleções são narrados, comentados, esquadrinhados de maneira tão sofrível que leva o ouvinte a pensar que o futebol está chegando ao seu fim. Ah, Jabulani!


São todos muito redundantes para não dizer que estão abaixo do senso comum no mundo do futebol. Recortam e colam bordões de limitada flexibilidade intelectual. O que salva os veículos não escritos são as reportagens – não todas – apresentadas nos telejornais ou no intervalo das transmissões dos jogos. Nesse terreno, ótimos textos são emoldurados por imagens de paisagens, pessoas ou elementos culturais nos quais os protagonistas estão inseridos.

Verdade seja dita, algumas agências de notícias teimam em ecoar o conteúdo dos livros didáticos: clima seco, temperaturas elevadas, chuvas com intervalos entre dois e três anos. Uai! O que é que se diz da produção de vinho na África do Sul, embora o clima frio não seja requisito essencial para o cultivo da uva? Tem que haver uma gotícula de água para a videira. Felizmente, via Copa do Mundo, a África não nos é apresentada tão somente como lugar exótico ou terra de homens nus com armas semi-artesanais empunhadas.


A Copa da África do Sul forçará a revisão do conteúdo sobre o continente africano nos livros didáticos, ainda que o país não seja representante de todas as dimensões do continente. Como tem sido divulgado ao mundo inteiro, estamos, africanos principalmente, tendo a chance de caminhar para fora do lugar comum, diuturnamente rotulado pelos meios de comunicação, os quais deveriam informar, ao grosso da população, quem é quem independente de preferências geográficas. Nesse sentido, reconhece-se que nós, brasileiros, cultivamos uma predileção obstinada pelos Estados Unidos da América e Europa – qualquer que seja o país, embora a África com todas as estações climáticas idênticas aos demais lugares do planeta terra, esteja a apenas oito horas de um simples voo.


Contudo e não obstante às preferencias dos narradores e comentaristas, os africanos não se derretem tanto pelo estrangeiro – branco de olhos azuis ou não. Ao que tudo indica, eles são pragmáticos: recebem-nos porque despejam fortunas nos “resorts”, “bangalôs” e outras quinquilharias. Entre umas e outras o sujeito arruma um emprego, sustenta a família e toca em frente. Pode-se dizer que o mundial da Fifa foi um bom negócio para todo o continente. Mesmo havendo imensas fissuras sociais e econômicas a serem reconstruídas ou mesmo muito bem atadas porque são seculares, o conjunto das operações desenvolvidas para a concretização do evento ficou patenteado no mega-show que antecedeu a abertura oficial dos jogos.


A presença de figuras carimbadas no campo dos protestos sociais expôs para o mundo uma África do Sul para além de suas fronteiras. Espetáculo musical recheado de notas: o combativo desejo de melhores dias para homens e mulheres ecou mais forte e uníssono do que a vontade de representar, para a maciça mídia presente, uma África high-tech, com prédios imponentes, gente movida pelo suave desejo de acúmulo de riquezas e prosperidade efêmera.


Ficou assim registrado na fala do bispo Desmond-Tutu, no canto do casal cego de Mali, na vibrante voz feminina de Angelique Kidjo, através do grupo de música tuaregue Tinariwen, da região norte do deserto do Saara; do colombiano Juanes - um dos nomes mais importantes da música latina atual- ; por meio da descendente de italianos, irlandeses, escoceses e jamaicanos Alicia Keys e, para não deixar de situar-se no mundo contemporâneo, a presença de astros roliúdianos, como Shakira – paradoxalmente não norte-americana, mas representante da cultura pop, globalizada dos últimos dias.

Felizmente os locutores e comentaristas, engolidos pela própria empáfia, e porque desconhecessem a maioria daqueles Astros, não estragaram a apresentação. Foi uma festa de arromba! Os próximos dias dirão quem é quem num evento múltiplo como este empreendido pela Fifa.

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