sábado, 21 de agosto de 2010

Infância e escola

A trajetória, de cada pessoa especificamente, é marcada pela memória que temos da infância: melodias, aromas, recordações gustativas; festas, as pessoas – crianças e mais velhos com os quais convivíamos - brincadeiras, alegorias e afazeres domésticos. A escola que frequentamos: o percurso de casa até aquele enorme de madeira. No retorno para casa, os estabelecimentos comercias que estavam fechando; os colegas, as brigas de meninos: o menino da sala que tinha um irmão mais velho, valente, capaz de brigar com qualquer pessoa. As colegas, o interior do prédio. A parte que mais me encantava era o pátio com seus enormes manguezais. Ao lado o muro do hospital.
No poema de Cora Coralina impressiona-me o poder da palavra. Quer dizer, a arte, aqui especificamente a Literatura, nos permite reconhecer que esse saber faz parte de nosso legado, coletivo e individual o qual aponta, dignamente, para os meus antepassados e permite-me prospectar o futuro. O processo de escolarização contribui para que o ser humano, não importa a condição financeira que este desfrute, estabeleça relação entre seus atos e o meio ao qual ele pertence. Sobretudo, deve-se ressaltar a efetiva transformação proporcionada pela intervenção de uma professora. Ao que me parece, a relação professor – aluno não deve revestir-se apenas e tão somente de cordialidade: é aquela que consegue contribuir para que esse aluno [mergulhado em seu mundo] desvencilhe-se de suas contradições, das amarras sociais e prospecte seu futuro.
Também na música existem vários autores que abordam a temática do ensino, escolarização. Gosto muito de João Vale , compositor e cantor maranhense. Em seu trabalho intitulado “Minha história” existe o dramático relato de homem que, tomado por suas memórias, relata sua infância e a convivência com os meninos, os quais, na mesma idade tinham a vida escolar como parte de seu cotidiano. Sua alegria no presente é cortador pela dor de saber que seus amigos de infância não puderam estudar e não sabem sequer fazer um baião. O fio que une as duas obras, de Cora Coralina e João do Vale, pode ser denominado as marcas da escola ainda na infância. Contudo, em cada uma das obras o fim é diferente. Enquanto para Cora Coralina, a partir da ação da Mestra Silvina a escola é ponto de partida e de chegada, de inclusão social, para João do Vale a ausência da escola é cristalizada como o elemento decisivo que poderia transformar seus amigos em alguém. Talvez por isso ele não se lembre do nome do professor.

“Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
Minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção

Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

E quando era de noitinha, a meninada ia brincar
Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:
- O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
(…)
Mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
Que também foram meus colegas , e continuam no sertão
Não puderam estudar, e nem sabem fazer baião”

VALE, João do. Minha História. In CD João do Vale,1981:Columbia Raridades.

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