domingo, 12 de setembro de 2010

O emprego

As novas tecnologias sempre causaram espantos. Quando Gutemberg imprimiu o primeiro texto, quando o pintor responsável pelo retrato das famílias e das paisagens foi substituído pelo daguerreotipo houve um espanto, agitação geral no seio da sociedade. A máquina fotográfica "podia roubar tanto a alma" quanto tirar o status social e o sustento financeiro de muita gente. Nós professores estamos no meio de uma mudança de paradigma trabalhista: seremos substituídos pelas máquinas, pelos sofisticadíssimos softwares?
A mudança não é indesejada, é sinal do desenvolvimento da raça humana, contudo, questiona-se, até onde e ainda pode-se questionar, a propalada modernidade de escolas com internet com banda larga, computadores, etc.: tem que mudar por que é importante ou por que "todo mundo" está mudando e eu não posso ficar de fora? Compra-se primeiro os móveis ou a casa?
De acordo com dados divulgados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) “Turmas nas escolas brasileiras são mais numerosas” [10/09/2010] http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/turmas+nas+escolas+brasileiras+sao+mais+numerosas+diz+ocde/n1237772647725.html- a escola brasileira cronicamente padece não de pessoas comprometidas, mas da precariedade de recursos físicos e salas de aula superlotadas. Muitos profissionais, lá dentro, agem mais por instinto de sobrevivência/preservação do que por estímulo institucional. O texto de Von Staa, Betina. “A complexa relação entre computadores e desempenho escolar” contradiz a escola pública: a disponibilidade de computadores nas escolas não permite que um professor utilize-os com todos os alunos de uma sala em uma única vez por dois motivos: existem, em média, 38 alunos na turma; na sala de informática só há 15 ou 16 computadores aptos para serem utilizados; isto se não houver demanda de alunos fora do horário de aula solicitando acesso à internet.
Qual é a solução? Shazam! Vamos privatizar porque assim as empresas tanto poderão demitir os incapacitados professores e fazer, rotineiramente, a manutenção das máquinas. Vamos reduzir o custo com a máquina pública, deficit orçamentário, etc. A educação pública está no alvo de todas as reformas neoliberais. Isto não é modernidade – é incompetência, caça às bruxas. Professor deve ser avaliado, o processo de aprendizagem deve ser discutido com frequência, responsavelmente.
Os novos recursos desenvolvem habilidades e competências, podem romper fronteiras – alienação, isolamento, exclusão social, falta de projetos individuais e coletivos. O professor não deve temer a máquina porque ele ainda a desconhece. A. Santos Dummond não voava até que, com competência, colocou no ar um objeto mais pesado do que o ar. Sempre que experimentamos mudanças tecnológicas profundas, ultrapassamos nossos próprios limites: a interatividade com o outro que até bem pouco tempo era estranho, forasteiro, redesenhou mapas geopolíticos, culturais e econômicos. Estão registradas na História as descobertas ultramarinas portuguesas. Por fim, no dizer de Lino de Macedo “a competência é um atributo das pessoas, exerce-se em um âmbito bem delimitado, está associada a uma capacidade de mobilização de recursos, realiza-se necessariamente junto com os outros”. Em outras palavras, não podemos esperar que as novas tecnologias trarão apenas impactos no mercado de trabalho, com mão de obra especializada, tecnicista, sobretudo, devemos entender que as tecnologias da informação e comunicação podem colaborar na produção de conhecimentos a partir de um currículo voltado para a competência de vestir o aluno de humanidade. Na interação com o outro ele possa realizar a aventura de viver conhecendo melhor a máquina humana e sua propensão tanto para criar a bomba de Hiroshima quanto para conceber uma cirurgia on-line, ou criar um coração artificial solucionar o problema imediato ou de longo prazo de seu próximo.

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