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Paixão

Carlos Drummond de Andrade, inconfundível poeta brasileiro, mineiro por excelência, escreveu um poema intitulado “Cidadezinha qualquer”. O sol, o ruído nas ruas, o andar das pessoas e o tique-taque dos relógios são uma fotografia viva ou, se preferir, uma "intervenção artística". O poema transporta o leitor para uma cidadezinha, qualquer, e esta para o interior dele. A simbiose é imediata tanto para quem já visitou uma pacata cidade do interior quanto para quem nasceu e foi criado naquele universo descrito por Drummond. Não importa, o poema encarrega-se de promover esse encontro.


Se alguém, que não tem o hábito cotidiano, parar diante da tv, no "horário nobre", para assistir Passione automaticamente é confrontado pelo elenco "fabuloso" e sua atuação na referida telenovela. Não é necessário recorrer a Aristóteles, à Poética, para entender o conceito de verossimilhança. Mas se o leitor tiver interesse procure pela obra, leia alguns capítulos, se não todo o texto, para depreender os fundamentos de uma obra de arte tanto escrita quanto musicada, cinematográfica ou pictórica. Ali não está o Belo, o Bom, Perfeito e o Agradável, mas os princípios fundantes a que todo interessado em Arte (todas) deve ler ou ter, por um bom tempo na vida, como livro de cabeceira.


De volta à representação do elenco na telenovela, é inegável a relação que se estabelece entre determinados atores e sua atuação. A TV não é igual ao cinema, mas não é tão diferente. Confundi? Um elemento não está relacionado ao outro, contudo, eles não se excluem. Assim é a convivência entre os dois veículos de comunicação.


Cá entre nós, não tenho a pretensão de tecer comentários entre os distintos universos. Mas não posso deixar de dizer que o “plim-plim” já foi bem melhor no quesito teledramaturgia. Basta lembrar da personagem Nazaré, interpretada por Renata Sorah em Senhora do Destino ou a dupla C. Raia e Patrícia Pilar em “A Favorita” isto para não citar as consagradas, arrebatadoras de audiência. São obras nas quais a genialidade do autor faz-se presente no suor do ator, no tecido da cortina, nas frestas do tablado.


Passione tem um enredo interessante, mas não convence: a vilã esforça-se para ser vilã, mas... o macarrônico idioma tem ingredientes datados, vencidos. Popularmente falando, a história “é manjada”, não há o inusitado, o surpreendente. Recentemente Glória Perez deixou à disposição do público [http://gloriafperez.org/?page_id=816] a sinopse de “O Clone”, novela que teve a virtude de apresentar de modo ainda caricato é verdade, parte da cultura do mundo árabe.


Talvez na teledramaturgia Passione reflita o próprio mercado ou, em outras palavras, a entressafra de Atores capazes de encarnar o personagem de tal modo que surpreenda até mesmo o mais cético espectador/telespectador. Eu me pergunto: se isto não está ocorrendo seria o efeito da concorrência entre as emissoras e produtoras de teledramaturgia? Ou, por que o cinema, por seu tempo e estética, apresenta retorno financeiro e projeção profissional maior no cenário nacional e internacional? São boas as questões pontuais sobre a maior, porém em declínio, fonte de renda para a TV brasileira.


Todavia, Passione e congêneres são intrigantes: ainda cativam o público a despeito da atuação do elenco. Isto é entendimento de quem, por acaso, esbarrou com uma cena da telenovela ou deve-se ao fato de o telespectador não ter o que fazer, e, grudado diante da TV, consome com devoção qualquer coisa – mas qualquer “coisinha” - que lhe dê a emissora ocupando seu tempo de ócio diante da telinha?



“Cidadezinha Qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar. . . as janelas se olham.
Eta vida besta, meu Deus.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Comentários

  1. que poema lindo!
    Vc anda assistindo novela??? Otima reflexao da impressao, do transporte q nos faz determinados atores vivendo seus personagens... gostaria q vc visse um filme de mafia, em italiano, para postar de novo este post... sem modificaçao... pq è assim mesmo como escreveste.
    Au revoir.

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Um texto é sempre inconcluso.

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