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Festa, que festança!


Carnaval é festa do demônio. Este mantra é repetido nas igrejas evangélicas – das mais liberais até, evidentemente, às mais conservadoras, tradicionalistas. É uma afirmação que ecoa ao lado de outra muito famosa: “o diabo é o pai do rock”, o que leva a acreditar que toda e qualquer dança, principalmente aquelas com movimentos mais intensos, é em homenagem ao pai do rock.

Ao que me parece o entendimento sobre a paternidade do rock tem sido contestada nos tribunais das próprias igrejas (neo)pentecostais ou tradicionalistas. Em favor de todas elas os advogados têm argumentado, perante os jurados, que o criador da música não é ninguém menos do que o Todo Poderoso, e, se não bastasse, fora roubado por um anjo, devidamente punido por esse ato. Tem havido aceitação consensual na argumentação de modo que surge espaço para outras manifestações artísticas no interior dos templos.

Todavia, noto que não existem posições acintosas contra o carnaval como existe em favor dos gêneros musicais templos a fora. Concomitante aos festejos, as denominações promovem, retiros espirituais para casais, crianças e, principalmente, adolescentes e jovens. Tem havido empenho especial no sentido de dizê-los tanto do amor de Cristo quanto do beco sem saída que são o alcoolismo, violência física, estupros, gravidez precoce ou indesejada e consumo de diversos tipos de drogas.

A industria carnavalesca é um verdadeiro império contra o qual poucos arriscam-se sequer a tecer comentários, isto porque investe significativos recursos materiais e humanos para girar a máquina que moí recursos públicos nas áreas da saúde, segurança, transporte e de comunicação.

A primeira atitude que essa poderosa indústria realiza é a de divulgar nos veículos de comunicação – que são parte dela mesma – que o carnaval é uma das maiores festas populares de que se tem notícia. Amalgamada a essa frase emenda uma outra, reforçando a auto-inclusão na primeira, “uma festa genuinamente brasileira”. Uma falsa verdade, é claro, mas que tem o poder de mobilizar centenas de milhares de brasileiros e estrangeiros. Uma fantasia para a escola de samba, um abadá para o bloco carnavalesco não se ganha no posto de saúde ou na sala de aula de escolas de educação básica ou do ensino superior.

Aliás, porque para se desfilar o sujeito tem que pagar – muito – é que contradiz-se todos os esforços do poder público para alavancar os entes envolvidos nas escolas de samba e blocos carnavalescos. O espaço é público ou construído com verba pública [ruas, avenidas, sambódromos] mas o acesso a ele só é facultado a partir do momento que o indivíduo está devidamente uniformizado como folião de determinada agremiação. As indústrias bancária, de telecomunicações e de bebidas expõe outdoors, banners, balões, banca camarotes vips, patrocina famosos, etc., etc. Para tudo isto o poder público argumenta que o município tem aumento na arrecadação de impostos. É tudo. O resto não merece explicação.

Após as festas, os mesmos veículos de comunicação que estimulavam o Zé da Vassoura a tornar-se um folião, na quarta-feira de cinzas, inicia o dia com a cobertura do aumento dos acidentes nas rodovias... públicas. Bradam por todos os cantos: “não houve investimento...” “ faltou...” “falta segurança nas nossas estradas e rodovias”. Claro que falta. Nesse momento o Zé da Vassoura já não tem o microfone para manifestar sua opinião: seu rosto é exposto no chão, ensanguentado, de preferência entre as ferragens de um automóvel, ou no mínimo, como um alcóolatra irrefreável.

A indústria carnavalesca é brutalmente inescrupulosa. Jamais admitirá que parte dos acidentes é creditada na conta das agências de publicidade e das cervejarias. Que os abortos provocados por estupro e pelo turismo sexual deva ser cobrado através do aumento de impostos de ISS dos conglomerados que enriquecem às custas da privatização da alegria. Quem deveria investir em campanhas publicitárias para prevenir contra os acidentes, as mortes de inocentes? Minha avó!

Quem diz algo contra é antiquado, xiita, moralista. Quer acabar uma “festa democrática” da qual participam homens, mulheres e crianças de todas as idades! É conveniente que haja mobilização contra a gastança do dinheiro público e, sobretudo, contra a ditadura midiática que impõe a necessidade do sujeito tomar parte na luxúria porque faz parte da cultura brasileira que provoca estragos gigantescos. Sou um entre dezenas de milhões de brasileiros que não ganha dinheiro enquanto está numa passarela sambando ou pulando. Não basta nos recluírmos nos mosteiros, sítios e chácaras enquanto centenas de milhares de jovens e adultos são cooptados pela miséria disseminada como um bem público o qual não faz diferença se aumenta ou diminui em quatro dias.






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