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Meu nome





Olá! Eu me chamo – quer dizer, não escolhi esse nome, assim como não me recordo de ter me chamado para ver se eu estava presente ou ausente, principalmente na sala de aula onde eu tinha (porque deram-me) um número. Contudo, gosto do nome que tenho.

Tendo desse modo dito quem sou, em outras palavras, porque tenho um sobrenome e um nome a associar-me como membro de um grupo de humanos, às vezes com as mesmas características, outras vezes gostaria que o dna do ISIS apontasse que aqueles caras... deixa pra lá! Pertencem à raça humana?

Já estudei em várias salas de aulas, com várias pessoas – algumas, em verdade bem poucas, morreram. Portanto, não sou tão avançado em idade: sou quase jovem. Não é bom? Vamos lá, seja sincero, afinal quem envelhece – o corpo – não está na moda.

Eu, quando não me chamam, gosto de ler livros, jornais, revistas [de tirinhas a assuntos de economia], gosto de música - erudita, étnica, rural, não objeto de consumo. Gosto do saber, do conhecimento construído. Quando me chamam pelo nome de Geraldo reconheço que é alguém com quem já conversei alguma vez ou repetidas vezes. Assim, costumo atender esses chamados para comer pizza, conversar, tomar café, ir à igreja. É muito agradável.

Entretanto, se me chamam por Geraldo de Santana Santos identifico, num átimo, que sou um estranho. Penso antes de atender. Outras vezes ouço: Professor Geraldo! De imediato tento situar-me onde estou: na rua? Xi, alguém diz com o olhar, coitado! Na sala de aula... estou enxugando o suor. Mesmo ali tem sempre um engraçadinho que pergunta: o senhor só "dá aulas ou trabalha em outro lugar?" Você leitor, acha que esse tipo de pergunta deve ter uma resposta?

Lembro-me que uma vez me chamaram com um olhar acariciante e palavras tão fixas que resolvi atender. Levei-a ao altar com vestido longo, véu, grinalda; marcha nupcial, chuva de arroz na saída e festa para muitos convidados. Era  um sábado, seis de maio do ano 2000. Choveu bem na saída. Já estava casado! Nos despedimos dos pais naquela noite mesmo. Já são passados 14 anos. Temos duas filhas lindas: uma é espevitada, risonha como a mãe; a outra é a mistura de nós dois.

Sou professor de Língua Portuguesa por escolha, identificação com literatura [barroca, a história da língua e literatura portuguesa e brasileira]. Trabalho na rede pública estadual. Reconheço-me como um ser contraditório. Quem não o é. Bobeira achar que deve ter uma resposta para cada pergunta. Você aprende, inclusive, que deve mudar, rever determinadas posturas, opiniões – não ao sabor dos ventos. Tem que ser coerente com sua família, o grupo social onde está inserido – amar ao próximo como a si mesmo e a Jesus Cristo como único e suficiente salvador.

Ah, não posso me esquecer: para escapar da escravidão, meus antepassados fugiram para um lugar, hoje (re)conhecido como Quilombo do Mangal, na beira do Rio São Francisco, em Paratinga, estado da Bahia. A única escola do local tem o nome patronímico de uma irmã de minha avó: Maria Felipa Gomes. Mulher de saberes diversos, principalmente de ervas medicinais. De todos os homens e mulheres da própria família recebia reverência por ser uma mulher singular.

Hoje longe muitas léguas, lembro do meu torrão natá”. Não me arrependo de morar em São Paulo. Aqui conheci Cristo. Se o Nordeste oferecesse as mesmas condições de hoje a 25 anos atrás, muitos dos meus amigos, eu inclusive, não teria deixado, pai, mãe, tios, tias, amigos, história de vida, cultura, e partido para terra tão árida de afeto. Neste lugar formei família - abissal contradição! Construo nova história. Mas meu sotaque não é daqui. É o que dizem quando me chamam.

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